The Desacordo Sessions – Alt-J alteram a fórmula e fazem-nos Relaxar (ou não)

Meia década depois de nos deixarem sem fôlego com An Awesome Wave e três anos depois de nos darem tudo em This Is All Yours, Alt-J tentam agora conduzir-nos a um estado de repouso com o seu terceiro álbum, RELAXER.

Conhecidos por serem uma banda alternativa de indie rock, Alt-J sempre tentaram fugir ao normal, ao mainstream, através dos seus sons peculiares e das suas letras curiosas, ímpares e, devemos dizer, muitas vezes perturbadoras.

O que é estranho e bizarro para uns, para outros não o é, e prova disso é o grande número de fãs que acompanham a banda, tentando perceber o rumo que esta vai tomando e toda a sua dinâmica, seja nas batidas, nos temas que abordam, na lírica, ou até nos videoclipes incomuns.

Sem Intro, sem Interlude e sem Bloodflood pt. III, Alt-J tentam fugir até ao seu próprio mainstream, desafiando-se não só a si mesmos como banda, como também aos fãs de longa data, que já se haviam restringido a uma determinada fórmula de Alt-J, podendo dificultar a adaptação a novas experiências e maneiras de compor música. São apenas 8 faixas, 39 minutos de álbum, tornando-se assim o álbum com menos músicas da banda.

RELAXER começa com 3WW (3 worn words), sendo este o primeiro single a ser lançado pela banda. Toda esta faixa gira à volta da simbologia do número 3, tendo em conta que o teaser da música foi publicado a 3/3, sendo a música total lançada três dias mais tarde, estando o álbum, originalmente, previsto sair três meses e três dias depois. Se já aqui podemos perceber a complexidade e a atenção ao detalhe, também o podemos compreender na letra, que conta a história de um rapaz durante uma noite na costa nordeste de Inglaterra, culminando no sussurro de “three worn words”. Essas “three worn words” correspondem a “I love you”. Uma superstição diz que passar a mão no seio da estátua de Julieta em Verona traz sorte no amor, mas isto foi já feito tantas vezes por turistas que causou o desgaste da estátua, levando-a a ser substituída por uma réplica. Na música, a banda relaciona este acontecimento com as palavras “I love you”, admitindo que estas, tal como a estátua, caem num uso excessivo, diminuindo a sua importância e significado. Voltamos a ver, no verso a seguir, o lado romântico dos Alt-J, que dizem “I just want to love you in my own language”.

O segundo single a ser lançado foi In Cold Blood, e mesmo não tendo uma letra, à primeira vista, tão profunda como 3WW, não deixa de ter a sonoridade característica da banda, com apenas o acréscimo de se tornar, por vezes, um pouco mais rock.

House of the Rising Sun é descrita como um cover para uns, mas defendia pela banda como uma “espécie de uma versão nossa da música folk”. A faixa mantém alguns lyrics iguais e outros semelhantes ao original dos The Animals, no entanto, distingue-se desta essencialmente no refrão “It’s a happy, happy, happy, happy, fun day, day”. Sendo um cover ou não, é uma versão interessante da música, explorando um lado não antes conhecido dos Alt-J, mostrando-nos mais uma vez a sua versatilidade e capacidade para surpreender.

Hit Me Like That Snare tanto pode ser visto como o ponto alto do álbum, como o ponto baixo. É, de todos os trabalhos já feitos pela banda, o som que mais difere do estilo de música a que Alt-J nos foram habituando, fugindo ao estilo indie e direcionando-se mais para uma vertente rock nunca antes feita pelos ingleses. Voltam aqui, mais uma vez, a fazer letras pouco profundas e algo perturbadoras, levando-nos a sentir, a meio do álbum, que a banda mudou de facto a sua maneira de compor.

Deadcrush comprova assim a alteração da fórmula, iniciando-se com um beat bastante distinto, mas catchy. Temos aqui presente, ao contrário de Hit Me Like That Snare, as letras carregadas de significado e simbolismo, onde são referidas as “deadcrush” (referido pela banda como alguém por quem se sente uma atração, mas que já não está viva) dos vocalistas da banda. Apesar de ser diferente do comum, é outro dos pontos altos do álbum, tendo em conta que conseguem realmente comprovar que são capazes de fazer vários tipos de música, deixando igualmente a sua marca (o que não foi conseguido em Hit Me Like That Snare tendo em conta que é uma faixa completamente deslocada e aleatória, sem qualquer perceção de que são realmente os Alt-J, a não ser pelas vozes inconfundíveis dos vocalistas).

Adeline é a balada de RELAXER. Sentimos aqui, pela primeira vez, que a faixa faz jus ao nome do álbum, e podemos realmente relaxar e descontrair, numa melodia calma e simples, cantada igualmente de forma calma e harmoniosa. O amor é tema de variadas músicas dos ingleses, sendo que esta não é exceção. Retrata a história de um diabo-da-tasmânia (mamífero marsupial natural da ilha da Tasmânia, na Austrália) que se apaixona por uma mulher que vê a nadar todos os dias. Apesar de abordar um tema estranho e obscuro, a qualidade da música não é de todo enfraquecida, dado que é bastante agradável ao ouvido.

Last Year é outra balada, o que nos leva assim a concluir que o relaxamento prometido no título do álbum é cumprido apenas no final deste, depois de toda uma agitação e emoção que nos é feita sentir durante as primeiras faixas. É uma música triste, tendo em conta que aborda o tema da depressão, sentida pelo primeiro narrador (Joe Newman), que vai relatando o seu último ano de vida (Last Year), nomeando os meses desse ano, descrevendo-os. Despede-se com um “December, you sang at my funeral”, e aqui mudamos de narrador, para uma voz feminina, Marika Hackman, dando toda uma outra intensidade e sentimento à música, tornando-a assim, por tudo o que esta acarreta, a melhor faixa de RELAXER.

Por fim, Pleader, que, apesar de não ser tão calma como as anteriores Last Year e Adeline, nos transmite uma sensação de relaxamento, talvez por nos dar uma “sensação de igreja”, objetivo da banda, que foi conseguido através da gravação do coro e do órgão de uma catedral. Consideram assim a melhor forma de acabar o álbum, dada a toda a emoção e esperança sentidas ao ouvir a faixa.

Apesar de ser um álbum curto, Alt-J conseguem cumprir com o prometido, deixando-nos repletos mesmo com apenas 8 faixas. Não fosse a Hit Me Like That Snare, o álbum teria melhor classificação.

Classificação TDSessions: 7/10

Escrito por: Daniela Carvalho

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