Dois Dedos de Música com Harold, dos GROGNation

A Rubrica “Dois Dedos de Música” está de volta e não poderia regressar de melhor forma. Harold Tembe tem 25 anos, é de Mem Martins e está no terceiro ano do curso Audiovisual e Multimédia na ESCS, em Lisboa. Faz parte do grupo GROGNation e, em conjunto com os estudos, ainda consegue conciliar a parte a solo da sua carreira. Admite saber que a escola é fundamental e por isso não a descarta da sua vida, mas que o seu foco será sempre a música.

Fazendo parte de um grupo em que quatro dos cinco elementos se dão a conhecer pelos seus nomes artísticos, Harold é o único cujo nome se mantém. “Eu antes tinha outro que era Tem-p só que depois parei de me identificar com o nome”, admite ao Desacordo. Explica que “Tem” surgiu devido ao seu apelido Tembe, e “p” advém de produções. Ainda em tom de gargalhada, revela que o nome era feio e que já não fazia sentido. “Em conversa com outras pessoas disseram-me “O teu nome já é artístico por isso fica fixe assim””.

A paixão de Harold pelo hip-hop provem, essencialmente, do seu irmão mais velho, que fez parte do grupo Força Suprema, numa fase inicial, e que manteve a chama do rap acesa, influenciando, por completo, o rumo da sua vida. “Ele sempre me criou contacto com o rap, com o hip-hop em si. Das primeiras pessoas que eu vi a fazer um graffiti foi o meu irmão, das primeiras pessoas que eu vi a rimar foi o meu irmão, a primeira pessoa que me mostrou os primeiros sons (Boss AC, Dealema, Valete) foi o meu irmão”. Este criou o seu gosto para ouvir, mas , numa primeira fase, ainda não para criar, sendo que só o começou a fazer anos mais tarde por influência de outros dois elementos dos GROGNation, Factor (António Silva) e Prizko (Tiago Gomes).

Ainda na fase em que o “bicho” de fazer rap ainda não tinha surgido, Harold focou-se sempre mais no hip-hop português, ouvindo também um pouco de americano, em especial Jay Z. A dada altura, os seus amigos mais próximos despertaram-lhe a vontade de criar, mas não começou por levar essa criação a sério. “Eu na altura jogava à bola e sempre levei mais a sério o futebol, até que fui convocado para a seleção de Moçambique, em 2012. Antes de eu ir já tínhamos a ideia de formar um grupo e quando fui para a seleção eles consolidaram mais o projeto. Quando voltei já estava com aquele “bicho” de fazer música e a cena foi crescendo”. Harold acabou por deixar a carreira futebolística e focou-se maioritariamente no mundo da música.

Quando questionado se considerava que esta entrada do hip-hop na sua vida tinha sido uma mudança radical, admite que não o encararia dessa forma, mas sim como algo progressivo. “Foi tudo numa brincadeira, tipo “gosto de fazer isto”, e quando demos por nós tínhamos bué gente a ouvir-nos e a partir daí é que começámos a levar as coisas mais a sério”.

“Nós costumávamos dizer que sentíamos como se o rap fosse uma droga, assim que começavas já crias mais, mais, mais”

Se fazer parte de um grupo e ainda lançar um álbum a solo parece muito para uma pessoa só, mais complicado se torna quando os estudos entram em cena. Confessa que “Pressão não há, o problema é conseguir conciliar o que eu gosto mesmo de fazer, e uma cena que eu sinto que é um bocado um dever meu (a escola)”. Não esconde que é uma tarefa difícil, mas também não a vê como impossível. “Sempre senti que era uma cena complicada porque o tempo que, às vezes, perdia a estudar ou a fazer um trabalho de grupo podia estar a fazer música ou estar com eles. Se nós formos tocar ao Porto, nós temos que sair daqui mais cedo, e, se eu sexta-feira saio às seis da tarde, já tenho que faltar e perder aulas. Queres concentrar a tua cabeça só numa coisa, mas tens que te estar sempre a dividir e isso consome-te”.

Harold compara a sua vida à vida da personagem Indiana Jones, nome também do seu álbum a solo, e conta ao Desacordo como surgiu esta ideia: “O Indiana Jones era aventureiro e professor de arqueologia, então dividi o meu álbum e a minha vida nessas duas partes, como se estivesse a viver uma vida dupla como ele”.

Ainda em relação ao seu álbum “Indiana Jones”, o Desacordo quis saber qual a sua reação ao feedback que lhe foi dado: “Sabia que havia músicas que iam atingir mais as pessoas, mas no geral não criei uma expetativa. Foi fixe, mas foi o meu primeiro projeto a solo, sempre trabalhei com os GROG, e ao mesmo tempo sinto que foi o meu primeiro trabalho de um processo que está bem no início”. Ouviu elogios de artistas que tem como suas referências, desde Valete a Capicua, e diz ser algo que tira como bastante positivo deste projeto. “Sinto que este álbum foi mais uma descoberta”, confessou ainda.

Admite que o projeto de que mais se orgulha é o álbum que produziu com os GROGNation “Nada É Por Acaso”, que será lançado ainda no dia 30 deste mês. Diz gostar de todos os seus trabalhos, mas encara este como um álbum mais maduro e que melhor o representa não só a ele, como ao grupo. Em relação a “Indiana Jones”, revela: “Também estou feliz pelo resultado final, mas sinto que ainda está em processo e hoje já oiço o meu álbum e sinto que posso fazer muito melhor. Mas isto também é algo que não quero perder”.

Neste momento, Harold está a 100% focado nos GROG derivado ao lançamento deste próximo álbum, mas não encara a sua vida como uma separação entre o grupo e a sua carreira a solo. Consegue conciliar ambas as partes e não pretende deixar de o fazer.

“Não digo que esteja focado numa só cena, mas focar-me principalmente em fazer música, seja com eles, seja sozinho”.

Para além das referências portuguesas, Harold começou a ouvir mais rap americano e possui três artista de eleição que gostaria de conhecer. “Os meus rappers favoritos são J. Cole e Kendrick, já tive oportunidade de os ver ao vivo. Como já os vi, conhecer seriam J. Cole, Kendrick e um terceiro, Joey Badass. São se calhar o meu top três”.

Em relação à sua carreira, não esconde o apoio que sempre lhe deram e que o ajudou a progredir enquanto artista. “A minha maior influência e que me deu algumas bases foi o meu irmão, mas a pessoa que mais me ajudou a evoluir e que de certa forma me deu algumas bases, também importantes, foi o Factor. Em termos de carreira, sinto que é a pessoa mais importante, pelo menos no início”. Em termos negativos, admite nunca ter sentido na pele o que é ter algo completamente arruinado por outra pessoa. “Graças a Deus, ainda não tive essa pessoa (alguém que marcou pela negativa). Se em algum momento deixei de ser tão produtivo ou abrandei o meu ritmo deve-se a mim, mas não há ninguém que tenha chegado e que me tenha prejudicado ou mexido com a minha carreira”.

Quanto a rituais e superstições, Harold afirma: “Acho que não tenho nada que leve para todos os concertos sem ser o normal, tipo o telefone. Não tenho nenhum amuleto, não tenho nenhum ritual”.

O Desacordo quis, ainda, saber quais a duas músicas (suas ou dos GROG) que não se importava de cantar em palco o resto da vida e Harold disse não ser tarefa fácil escolher apenas duas. “Há uma que eu curto bué de cantar que é a “Na Via”, e se calhar a “Voodoo”. A “Na Via” gosto por causa da energia e também é o último trabalho que nós lançámos, tenho-a um bocado fresca na cabeça, e a “Voodoo” porque é a nossa música mais conhecida então há uma interação com as pessoas que é completamente diferente. As pessoas cantam connosco do início ao fim, com bué entusiasmo”.

Sentes-te realizado?

“Realizado não digo, mas sinto-me feliz. O facto de acordar todos os dias e fazer o que eu gosto. Ainda não me sinto realizado porque há muitas coisas que ainda quero fazer e que sinto que se calhar só vão começar agora. (…) Acho que as pessoas ao se sentirem realizadas parece que chegaram a um ponto em que a partir dali não querem mais nada e eu espero nunca me vir a sentir mesmo realizado, mas ter sempre novos objetivos”.

A escolha da redatora:

Por muito cliché que possa parecer, a minha escolha é o tema “Voodoo”. Foi a música que mais me “puxou” para os GROGNation e que desde o início me fez ter um carinho especial por eles. Antes de ter começado a ouvir as suas músicas, não ligava minimamente a hip-hop português, sempre me passou ao lado. A partir daí e com a influência de “Voodoo”, os GROG e em especial o Harold despertaram o meu gosto para o rap. Dois dias depois de ter ouvido o seu trabalho pela primeira vez, foram à minha escola de secundário para a semana das listas e confesso que me senti uma miúda com tanto entusiasmo. São geniais.

Escrito por: Inês Queiroz

Editado por: Ricardo Marquês

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s