A Revolução de Abril – E Depois do Adeus? 

Na madrugada do dia 25 de abril de 1974, com canções de Zeca Afonso e Paulo de Carvalho como banda sonora, um grupo de militares comandados por Otelo Saraiva de Carvalho, revoltosos com o regime do Estado Novo que vigorava no nosso país desde 1933, decidem levar a cabo um golpe militar com o objetivo de devolver à Nação a democracia tão desejada. Comecemos então esta viagem no tempo com vista a analisar os antecedentes e os precedentes da maior revolução militar do nosso país e que nos deu as liberdades que temos hoje. 

Primeiramente, é necessário ver o contexto socio-político em que Portugal se inseria aquando da “Revolução dos cravos”. Como é sabido, Portugal estava imerso num regime autocrático e corporativista sob a alçada de António de Oliveira Salazar desde 1933, denominado por “Estado Novo”. Um país maioritariamente rural, condicionado por uma polícia política (PIDE – Polícia de Intervenção e Defesa do Estado) e com condicionalismos ao desenvolvimento industrial, mostrava-se pobre e faminto, descontente com o regime ditatorial de Salazar. A administração e manutenção das colónias portuguesas em África era cada vez mais insustentável pois a guerra, fruto dos movimentos independentistas, tinha um grande peso na economia, empobrecendo cada vez mais o nosso país, chegando muitas vezes a ser desviado dinheiro de infraestruturas na metrópole para a guerra colonial. Ansiava-se não uma revolta popular, mas sim um golpe de estado, uma verdadeira revolução. Eis que António de Oliveira Salazar morre em 1970 vítima de um Acidente Vascular Cerebral, sucedendo-lhe Marcello Caetano. O período inicial da liderança de Caetano ficaria conhecido então por “Primavera Marcelista” que marcava uma progressiva modernização económica portuguesa e uma moderada liberalização política servindo como exemplo o retorno dos exilados Mário Soares e D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto. Apesar da suave abertura do país ao mundo e da aproximação á Comunidade Económica Europeia, um dos problemas fundamentais da política salazarista mantinha-se em grande força: a manutenção das colónias, a opção militar e rejeição das negociações e concessão de independências. Posto isto, surge um grupo de oficiais militares descontentes com o status quo português, em particular com a política colonial, que decide levar a cabo um golpe de Estado de índole militar com o objetivo de terminar o regime do Estado Novo, então governado por Marcello Caetano, embora de forma mais moderada mas que não correspondia ao slogan utilizado pelo regime marcelista, “Evolução na Continuidade”.

O golpe foi trabalhado durante quase um ano, tendo a primeira reunião clandestina de conspiradores ter tido lugar em Bissau a 21 de agosto de 1973. Foi a 9 de setembro do mesmo ano que foi fundado o Movimento das Forças Armadas numa outra reunião, desta vez no Monte Sobral. No dia 14 de março de 1974 são depostos dos seus cargos de Vice-Chefe e Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas o General Spínola e o general Costa Gomes, por alegadamente não quererem participar na mudança do regime, sendo que a verdadeira razão do afastamento foi a produção de ambos de um livro (“Portugal e o Futuro”) que advogava uma resolução política e não militar nas colónias portuguesas em África.

Já no dia 24 de abril de 1974, um grupo de militares encabeçados por Otelo Saraiva de Carvalho instala secretamente um posto de comando no quartel da Pontinha, em Lisboa. Por volta das 22h55m do mesmo dia, os Emissores Associados de Lisboa emitem “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, e eis que surge o primeiro sinal para a tomada de posições para a fase inicial do golpe militar. O segundo sinal é transmitido às 00h20m assim que a Rádio Renascença, através do programa Limite, emite a música “Grândola, vila morena”, de José “Zeca” Afonso, e é precisamente este o sinal que marcou o início das operações. Vários regimentos militares numa ação concertada vão tomando quartéis, postos, aeroportos, a rádio (Rádio Clube Português) e a televisão (Radio e Televisão de Portugal) ao longo da madrugada, mas a tarefa mais importante cabe às tropas comandadas pelo Capitão Salgueiro Maia: a de tomar o Terreiro do Paço, em Lisboa. A Escola Prática de Cavalaria parte de Santarém e chega aos Paços do Concelho nas primeiras horas da manhã. Mais tarde, Salgueiro Maia move parte das suas tropas para o Quartel do Carmo onde estava Marcello Caetano que acabou por se render mais tarde, delegando o poder executivo ao General Spínola (que não fazia parte do MFA) para que este “não caísse na rua”. O balanço da revolução mostrou quatro mortos, quatro civis abatidos pela Direção Geral de Segurança (antiga PIDE), enquanto um grupo se manifestava á frente das suas instalações na rua António Maria Cardoso.


Depois de um dia agitado, Portugal acorda no dia 26 de abril sob a égide da Junta de Salvação Nacional, composta por militares, que daria início a um governo de transição de acordo com o programa do MFA que, em síntese, se pode resumir a três D’s: Democratizar, Descolonizar e Desenvolver. Como seria de esperar, algumas das medidas prontamente aplicadas foram a extinção da polícia política e da censura, a legalização dos sindicatos e dos partidos, a ordem de soltura de muitos presos políticos de Caxias ou Peniche e o regresso do exílio de outros tantos líderes políticos.

Passado uma semana, o “1.º de maio” é pela primeira vez em muitos anos celebrado com uma adesão de quase um milhão de pessoas em Lisboa. O processo que se seguiria á Revolução de 25 de abril é designado por PREC (Processo Revolucionário em Curso) que se estendeu por dois anos recheados de tensão e confrontos entre fações de esquerda e direita. Procedeu-se á nacionalização de grandes empresas, ao “saneamento” de quadros importantes e leva-se ao exílio personalidades ligadas ao Estado Novo. Acaba-se a guerra colonial e as colónias africanas e de Timor-Leste tornam-se independentes. Por fim, a 25 de abril de 1975, são realizadas as primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte, ganhas pelo Partido Socialista. É elaborada então uma constituição de grande pendor socialista aprovada em 1976 por todos os partidos exceptuando o CDS e é estabelecida uma democracia parlamentar ao estilo do ocidente. A 23 de setembro de 1976 forma-se o I Governo Constitucional de Portugal, sob a chefia de Mário Soares, e já com Ramalho Eanes, militar em Angola, como Presidente da República Portuguesa. Pelo meio houve ainda o período designado por “Verão Quente”, o verão de 1975 que ficou marcado por vários confrontos entre esquerda e direita. Durante o PREC, as fações de direita conjuntamente com a Igreja Católica receavam uma radicalização política chegada à esquerda, procederam a ataques a sedes de partidos de esquerda e até mesmo a ataques bombistas principalmente no Norte e em Rio Maior, em Santarém. Como resposta, fações de esquerda incendiavam terrenos perto das povoações para instituir medo junto das mesmas. A violência perpetrada pelos dois espectros políticos deu origem ao nome “Verão Quente” e ao quase surgimento de uma guerra civil.

Por fim, o legado deixado por esta Revolução ainda não é algo que seja pluralmente acordado. Os mais chegados à esquerda pensam que as grandes “conquistas da revolução” foram-se perdendo ao longo dos tempos, desfazendo-se assim da construção de um socialismo democrático. Os mais chegados à direita lamentam a forma como foi conduzida a descolonização e as progressivas nacionalizações bem como as expropriações e ocupações de terras de forma exagerada pela esquerda nos anos seguintes á Revolução. No entanto, um ponto em que ambas as partes devem concordar é que a Revolução dos Cravos marcou o ponto de partida de um salto enorme de Portugal a nível sócio-político. É muito graças a este movimento revolucionário que tenho a oportunidade de escrever sobre tal assunto.

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