The Desacordo Sessions – Spoon (me)

Parece surreal, mas os Spoon não conseguem parar de nos surpreender. Três anos depois do seu último sucesso They Want My Soul, a banda lança-se no seu nono e mais recente “rebento” Hot Thoughts. Um álbum que mantém o estilo indie, mas de uma forma mais controversa que todos os anteriores, que conta com 10 faixas e que nos “encolherou” de uma forma única e especial, como só os Spoon sabem fazer.

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A banda rock americana já conta vários anos de carreira e nunca em nenhum deles perdeu a essência do seu trabalho. Este ano, demonstraram mais uma vez ser o que podemos definir como fora do normal, no sentido positivo da expressão. Aos antigos passos que têm vindo a dar, juntam uma espécie de plot twists: desde novas texturas eletrónicas, a novos passos decididamente mais livres.

Hot Thoughts é, até à data, o projeto de Spoon mais criativo e rico, não só em termos musicais, como em termos estéticos. Num estilo rítmico e lírico, levam-nos a divagar num mundo aparentemente simples, mas not that simple, que só nos poderia levar ao estilo dos geniais Cage The Elephant. Por outro lado, a capa do álbum apresenta-nos o ser humano na sua forma “nua e crua”, mas que através das cores quentes e intensas criam um mix de sentimentos que tão bem nos caracterizam enquanto pessoas, tal como aos próprios Spoon.

Com o nome idêntico ao do álbum, Hot Thoughts é a primeira faixa e o single principal, que se afasta significantemente do rock característico de They Want My Soul, entrando no instrumental mais clássico da banda e que ao longo da música vai lentamente construindo um ambiente de tensão. Lança-nos numa onda energética contagiante, que é então acalmada liricamente, mas de uma forma não tão clara, pelos hot thoughts acerca de uma rapariga a quem chama de “babe”.

WhisperI’lllistentohearit é essencialmente eletrónica e possui uma mudança temporal consideravelmente notável. A segunda parte da faixa faz-se acompanhar mais pelas guitarras e pela indistinguível bateria, que participa ao longo de todo o álbum. Através da letra, a banda procura um pouco de espírito e alguém que lhes mostre algo como “some sign of life”. Num registo não muito distinto, Do I Have To Talk You Into It é uma homenagem aos clássicos da banda, que mais uma vez conta com a bateria de Jim Eno num primeiro plano e que parte numa aventura lírica sem tabus, da qual faz parte uma espécie de relação amorosa de longa data. Depois do “knock knock”, é certo: “I have to talk you into it”.

First Caress é nada mais, nada menos, do que uma gigante faixa em termos rítmicos, como também a pura representação de um dos fantasmas que assombram a cabeça do vocalista Daniel. Num amor falhado, vê o seu lado mais sensível erguer-se e a formar a personalidade de um ser que é, acima de tudo, humano. “Coconut milk, coconut water/You still like to tell me they’re the same/And who am I to say?” comprova essa sua fraqueza em relação ao amor.

Como uma exceção ao estilo característico do álbum, Pink Up entra no lado lazy e chill out da banda e torna-se na faixa que poucos esperavam ouvir num álbum de Spoon, uma das provas de que é impossível não ficar de boca aberta (literalmente) com mentes tão imprevisíveis como estas. Numa mistura de harmonias vocais, pianos, vibrafone e uma sonoridade relaxante, esta faixa de quase seis minutos entra num registo lírico bastante aleatório, acompanhado por um estilo groovy e que deixa o quarteto a soar um pouco a Radiohead.

Em oposição ao single Hot Thoughts, Can I Sit Next To You é uma faixa muito mais clara e simplista, que revela o “vírus” do dance-rock infiltrado em Spoon. Numa excelente abertura ao som de um bater de palmas e dos acordes de guitarra, o desejo do vocalista de se sentir confortável com alguém é notório, sendo que esta é definitivamente uma das grandes faixas do álbum, senão mesmo a melhor.

I Ain’t The One introduz novamente o contexto do piano numa balada melancólica e não tão Spoon, o que de certa forma acaba por ser interessante pois conseguimos ver a banda a esforçar-se para fazer algo diferente dos últimos oito álbuns e a tentar que o seu registo não se torne repetitivo e, no bom português, mais do mesmo. Os drum beats mantêm-se e liricamente podemos dizer que há uma certa antítese em relação às faixas anteriores que tocam no tema das relações: desta vez, é Daniel que vira às costas e admite não ser o “The One”.

Tear It Down é uma tentativa da banda de criar um hino, que acaba por remeter para um registo que não é próprio deles, mas sim de Arcade Fire. Como hino que é (introduzido eletronicamente), representa a coragem e força de vontade de querer quebrar algo que limita a liberdade e desejos de alguém. Depois de “tension” e mais “tension, tension”, a faixa termina com um instrumental essencialmente focado na bateria.

A combinação do baixo com (novamente) a onda rítmica da bateria faz de Shotgun uma faixa em que a banda incorpora novas texturas no seu habitual estilo musical. As diferentes guitarras dão a esta música aquilo que é necessário para pôr qualquer pessoa a dançar, ainda que ao mesmo tempo seja a típica canção que nos dá vontade de ter no carro e conduzir durante um dia inteiro.

Por último, Us são cinco minutos de jazz só e apenas instrumental, onde entram saxofones e baladas de sinos, bem como a música mais abstrata de Spoon não só neste projeto, como nos restantes. Não implica necessariamente que seja algo “WOW” (e não é), no entanto é sem dúvida algo inesperado.

Spoon não são a banda que passa de duas em duas horas na rádio (ou que passe na rádio de todo), não são a banda que qualquer pessoa conheça e muito menos a banda de que se fala no momento (ou em qualquer outra altura). No entanto, são a banda essencial, aquela que possui a sua “own thing” e que tem orgulho nisso. Tudo isto, bem como Hot Thoughts, são o que fazem deste quarteto algo tão surpreendente, independentemente do número de fãs ou do número de vezes que as suas músicas foram ouvidas no Spotify. Spoon é a banda que se mede pelo tamanho da sua exclusividade, porque o que não tem em número de vezes ouvidos na rádio, tem em número de álbuns. Nine and counting.

Pontos fortes: Hot Thoughts, Can I Sit Next To You, Pink Up.

Classificação TDSessions: 7/10

Escrito por: Inês Queiroz

Editado por: Ricardo Marquês

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