Para acabar de vez com a Ritalina

“Bom dia meninos! Vá lá, sentem-se…  e silêncio que a aula vai começar!”.

Quem nunca ouviu estas palavras pelas 8h da manhã? Ou pelas 10h? Ou pelas 12h? Ou pelas 13h? A verdade é que grande parte das crianças e jovens se levantaram da cama naquela manhã e se foram sentar num carro, ou autocarro, e se dirigiram à escola, para daí ficarem demasiado tempo quietas e domadas. Contra todas as regras estabelecidas, contudo, a energia armazenada permanece intacta. E não vale a pena dizerem que é da educação, ou falta dela. Não!

Contra factos não há argumentos: há décadas atrás os miúdos passavam horas a fio nas ruas a correr, e a saltar, e a pular. E as pessoas mais velhas sempre me disseram que as aulas não eram tão longas no tempo deles. Havia intervalos mais frequentemente. Já para não falar na extensão do horário… Mas hoje, impinge-se neles todas as novidades pseudo-pedagógicas  e espera-se deles a maturidade (ou «atitudes e comportamento», como lhe chamam) que não têm. Porquê? Se o sistema falha, porque não se respeita o mais óbvio, a biologia? É impossível uma criança manter-se concentrada por 90 minutos. Só com Ritalina, está bem? (Não, não está). O consumo desta substância aumentou em Portugal, entre 2011 e 2015, em mais de 77%. Por outros números, 7 milhões de comprimidos por ano.  A esmagadora maioria delas nem sequer é “hiperativa”: é criança. E quando uma grande percentagem de alunos já depende de uma droga para se adaptar ao sistema. O que é que está mal, afinal?

«Children are movement-based». A grande maioria delas é. E, mesmo para os mais sossegadinhos, uma mudança generalizada na duração das aulas, bem como a promoção dentro do espaço escolar das mais diversas atividades físicas entrosadas pelo dia fora, só lhes traria benefícios. Já imensos estudos científicos nos demonstraram a relação entre alunos com maior atividade física e níveis de concentração; ou a relação, em média, entre alunos fisicamente bastante ativos e o seu desempenho escolar. O movimento energiza-nos, oxigena o cérebro e distrai-nos em momentos de stress.

“A atividade física diária é uma oportunidade para a escola regular se tornar uma escola de elevado desempenho”, diz-nos Jesper Fritz, autor principal do relatório de 2013 do Instituto de Medicina da Universidade de Lund, na Suécia,  que mais uma vez evidenciou o papel da atividade física no desempenho cognitivo e na atenção.

James F. Sallis, professor de Medicina da Família e Saúde Pública na Universidade da Califórnia, em San Diego, que fez pesquisas sobre a associação entre pausas para atividades e comportamento em sala de aula, acrescenta que “o movimento ajuda o cérebro de muitas maneiras” e que “a atividade estimula mais vasos sanguíneos no cérebro para suportar mais células cerebrais. E há evidências de que crianças ativas se saem melhor em testes padronizados e prestam mais atenção na escola”.

John Ratey, professor de psiquiatria na Harvard Medical School e autor de “Spark: The Revolutionary New Science of Exercise and the Brain”, disse que “o movimento ativa todas as células cerebrais que as crianças usam para aprender, acorda o cérebro. Além disso, faz com que as crianças queiram ir mais à escola – é divertido fazer essas atividades”.

E foi com base nestas ideias – ou melhor –  factos,  que, então, um senhor chamado Steve Boyle, um dos fundadores da Associação Nacional da Alfabetização Física, nos Estados Unidos, se lembrou de criar um programa de movimento para as escolas. “As crianças não devem ficar sentadas o dia todo e receber informações”, acrescenta. A ideia, para já, teve aderentes de 15 estados dos EUA e já conseguiu ser exportada para Canadá, México, Irlanda e Austrália. E por cá convinha alguém se lembrar de fazer algo idêntico. Só para acabar com a Ritalina de vez.

 

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Ana Azevedo

Editado por: Ricardo Marquês

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s