FCSH – Manifestação ou Despique?

Como é sabido, foi cancelada a conferência do politólogo Jaime Nogueira Pinto no passado dia 7 de março, que iria ter lugar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), da Universidade Nova de Lisboa. A conferência iria debruçar-se sobre os temas da extrema-direita, Donald Trump, Marine Le Pen e o Brexit, e tinha como nome “Populismo ou Democracia?”. A conferência acabou por ser “visada” e cancelada pela direção da faculdade por (alegadamente) não estarem reunidas as condições de normalidade e segurança depois de alguns alunos da Associação de Estudantes terem criticado a conferência, o orador e os temas em debate, justificando que era uma forma de incitar ao extremismo de direita. Foram até avistados no mesmo dia indivíduos albergando braçadeiras com a cruz suástica (apoiantes do PNR) à porta da faculdade, sitiada na Avenida de Berna. 


Como resposta a esta afronta, o Partido Nacional Renovador (PNR) decidiu convocar uma manifestação para ontem, dia 21 de março a favor da… liberdade de expressão. Os alunos da FCSH, aqueles que se dizem apoiantes do comunismo, decidiram comparecer numa contra-manifestação. Ao descobrir esta rábula, deu-me vontade de lá estar, aliás, primeiramente deu-me vontade de rir, mas de seguida sim, senti que devia estar por lá para ver o que cada parte teria a dizer em relação à outra. Apanhei a carreira 756 em direção a Olaias e saí na Gulbenkian pois o trânsito provocado pelas carrinhas e carros policiais esgotou a minha paciência. Assim que cheguei à FCSH, com a minha radical ideia de que iria assistir a uma manifestação, deparei-me com um dilema: isto é uma manifestação ou é simplesmente um despique entre dois cursos da faculdade? Fiquei confuso, e porquê? De um lado estavam 200 indivíduos apoiantes comunistas e do outro, cerca de 30 militantes/apoiantes do PNR ostentando bandeiras do partido. Ora cantava um grupo, ora cantava outro. De um lado, “Fascistas, Fascistas, Fascistas!” e do outro “Comunas, Comunas, Comunas!”. Atente-se que até cantaram o hino da FCSH! Foi o total pandemónio…

Inicialmente a reação despertada em mim foi “O que é isto afinal?”. Cansei-me um bocado de estar em pé sem fazer nada (até porque me proibiram de filmar ou tirar fotografias) e decidi ir beber um café à famosa esplanada da FCSH. Para meu espanto, na esplanada é que estava “montada” uma verdadeira manifestação anti-fascista. De que forma? Alunos sentados a ouvir uma rapariga que discursava sobre o fascismo e as suas problemáticas, terminando com a frase “FASCISMO NUNCA MAIS”, seguido de uma playlist adequada que contemplava Zeca Afonso e Sérgio Godinho. Na mesma esplanada encontravam-se cadeiras e mesas vandalizadas e partidas pelos mesmos apoiantes do PNR que lá fora gritavam por “liberdade de expressão”. Comentei com um amigo meu, aluno daquela faculdade que como eu estava ali de forma imparcial, que nunca tinha visto uma “manifestação” daquele género e depois de uma breve conversa chegámos os dois à mesma conclusão: o PNR marcou o protesto porque a conferência organizada pelo movimento de extrema-direita Nova Portugalidade tinha sido vetada por uma faculdade que como é universalmente aceite, tem fortes influências esquerdistas e a contra-manifestação organizada pelos alunos clamava pelo fim do fascismo. Mas se assim é, porque é que não foram ouvidos comentários em relação à mesma? Estavam reunidas as condições para que se formasse um campo de batalha na Avenida de Berna porque tanto de um lado como do outro a única coisa que se ouvia era insultos, afrontas políticas e pouco mais. Até um cone de sinalização foi atirado em direção ao presidente do PNR, José Pinto Coelho! Este, em resposta, desce ao mesmo nível dizendo “Mas o que é que estes cab*** querem?!” retirando o cinto das suas calças como quem diz “Vais ser açoitado”. Sim, isto aconteceu, eu ouvi, vi, só não pude fotografar. E está em toda a imprensa.

Bom. Eu já assisti a muitas manifestações, de esquerda, de direita, de independentes, de centro, de tudo e mais um pouco. Mas nada que se compare à de ontem. O cancelamento da conferência, na minha modesta opinião não faz sentido algum, e é claramente uma afronta ao direito da liberdade de expressão readquirido em 1974, na revolução que os comunistas tanto puxam para o seu lado. Ainda menos sentido faz um protesto da extrema-direita a favor desse direito. Talvez daqui a uns 50 anos, nas aulas de História se estude não só as Batalhas de Alcácer Quibir e Aljubarrota mas também a célebre Batalha da Avenida de Berna. Posto isto, espero que depois desta peça não me impeçam de entrar na FCSH.

Escrito por: Bruno André

Editado por: Adriana Pedro

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

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