The Desacordo Sessions – Slow J e a arte de abrandar

Depois do lançamento de “The Free Food Tape”, que marcou a sua carreira, capultando-o para um nível de buzz só equiparado a Sam The Kid nos seus lançamentos iniciais, Slow J volta agora ao ataque com “T.A.O.S.D. – The Art of Slowing Down”.

theartofslowingdown

João Batista Coelho, mais conhecido como Slow J, é um músico/produtor, natural de Setúbal que complementa os seus estudos em Engenharia do Som com o seu esquema rimático e flow ao nível dos melhores, de forma a criar um projeto que está e irá, de certeza, mudar não só o panorama do que é feito de Hip-Hop em Portugal, mas também o panorama geral da música portuguesa.

O álbum começa com Intro, onde Slow J utiliza um excerto retirado de uma entrevista a José Mujica, ex-presidente do Uruguai, algo que acontece várias vezes durante o álbum. José interroga-se do porquê de se existirem revoluções quando, apesar dessas, continuamos a viver num mundo cheio de hierarquias, antevendo um álbum que procura uma forma de pensar evolutiva e sem barreiras.

De seguida, Arte é um excelente jumpstart. Sendo um dos singles lançados antes do álbum, serve perfeitamente para nos enquadrarmos na sua ideia temática. O beat com um ritmo quase de corrida, onde Slow e o seu flow navegam, quase sem esforço, complementam de forma perfeita a ideia passada no single, onde o artista fala das suas ambições e da sua subida no panorama do hip-hop português e salienta, no refrão, o quão dificil é de perceber a diferença entre o talento (“Arte”) e o trabalho (“Ar de Duro”).

Casa é uma track onde o Slow J nos remete para uma perspetiva descomplicada da sua produção musical, onde se evidencia uma tentativa de juntar tudo o que é seu (“Lá em casa, qualquer cor dá”), existindo uma referência no hook ao Fado (o estilo musical que mais caracteriza Portugal) e ao Semba (estilo musical angolano, fruto de várias fusões musicais). Beijos(interlude) é uma breve passagem por um ritmo mais romântico, onde J vê o beijo de uma certa pessoa como algo poderoso, capaz de mudar perspetivas.

O single Sonhei para dentro é uma forma do J se distanciar e criticar a ideia que a sociedade nos impinge desde novos, de que o ideal é um trabalho normal e uma mentalidade ignorante, sem crítica. Através do seu trabalho árduo (“Ma nigga, eu tou no grind 24/7”) na procura de melhorar a sua arte, procura ser um ponto diferenciador a contribuir para essa mudança de pensamento. A seguir, Às vezes é um reflexo do lado que ninguém vê. Fala da perda de um amor e as suas consequências, da forma como o homem, na sua masculinidade, tem de fingir que nada se passa, trazendo “à baila” temas como a depressão e o suicídio. A contribuição de Nerve traz uma vertente quase poética, que complementa, perfeitamente, o tom melancólico assente.

Comida é um single onde Slow J deambula durante cinco minutos, num beat urbano. Aqui fala de diversos temas, como as etiquetas raciais criadas pela sociedade e como estas são barreiras ao progresso (“Tão-me a meter etiquetas, gavetas só tretas, ‘pa ver se a minha sola cola”); fala também do facto de a verdade ser aquilo que o desperta, procurando-a nas opiniões e perspetivas de outras pessoas; de ter sido alvo de manipulação e do combustível que isso foi para ele; de como trabalha árduamente para alcançar os seus objetivos; torna-se ainda evidente a procura de se colocar entre os grandes nomes da música portuguesa. Como o J referencia, este single é uma tentativa de, através da sua alma e pensamento, alimentar outros.

Com Biza, Slow J mostra-nos um pouco da sua história familiar. Salientando a coragem e dedicação da sua bisavó, avó e o pai, referencia de que forma o facto do ter herdado essa forma de ser o levou a ser como é. Ainda de mencionar que a trompete que se ouve no final da música, segundo o artista, serve para delinear o meio do álbum. Serenata conta uma história de amor, onde duas pessoas, que são inseparáveis, acabam por deixar com que os problemas os afetem, ficando por “um fio”. Mais uma vez, J referencia uma relação amorosa como sendo um abrigo, algo terapeutico. A seguir, Último Empregado é um grito de guerra, onde o Slow J, mais uma vez, referencia a importância da sua família no seu sucesso, dizendo que “sangue do meu sangue veio pa encher a barriga”.

Pagar as contas é, de longe, um dos pontos que marca o álbum. A junção da produção de nível americano com o timbre sonoro melancólico de Slow J, potencializado pela língua portuguesa, é um sinal do processo evolutivo que este artista está a trazer ao nosso panorama. Trata-se de um dos melhores beats que já se ouviu por território português. Para além de contar com uma masterização excelente, algo a que J já nos habitou, conta ainda com uma progressão que se adequa, e de que forma, ao flow de cada um dos participantes neste single. A temática centra-se em volta da rotina de trabalhar para pagar as contas, como indica o título, tendo, de novo, um excerto de José Mujica, da mesma entrevista, a fortalecer o conceito explorado. As participações são o ponto forte desta música, com Gson e Papillon a contribuirem, de forma extraordinária, com flows diferentes mas igualmente marcantes.

De seguida, Slow J com Vida Boa mostra o seu foco em completar a sua sina, ao querer ter uma boa vida resultante do seu esforço e dedicação e não uma vida em que tudo lhe foi entregue de bandeja. Este é, também, um dos pontos mais fortes deste álbum. A produção, que complementa o tom mais melancólico é algo importante de salientar, com especial atenção ao climax instrumental e vocal presente no segundo verso. Sado é um hino ao seu lugar de nascença, Setúbal. Salienta o esforço e espírito de luta e trabalho carateristico das pessoas que vivem na Margem Sul, dizendo ainda que o Sado (o rio) perdoa quem sai, mas volta. P’ra ti trata-se de uma mensagem para o próprio ou para quem o oiça de que a sua mente, o seu esforço, o seu trabalho, está todo presente nesta obra. É, aqui, também, evidente o tom melancólico/de arrasto.

Para finalizar o álbum, temos Mun’dança. Num single onde o beat mostra, de forma óbvia, o ritmo africano já referenciado, a mensagem é de conclusão do álbum, ao dizer, como o fez em entrevista, que depois deste álbum, outro virá, não estando nos seus planos deixar de criar música.

Este álbum é, definitivamente, um dos pontos marcantes na construção de uma nova era do hip-hop português. Slow J consegue, como nunca, conciliar o tom melancólico inerente à língua portuguesa com o nível de produção e beats americanos, muito ao estilo do que faz J. Cole. Se há alguém capaz de trazer o hip-hop português para palcos internacionais, à semelhança do que fez Stromae, é Slow J. Se o futuro passa por ele, que passa, de certeza, estamos em muito boas mãos.

Classificação TDSessions: 8/10

Escrito por: Ricardo Marquês

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s