Fomos “Encontrar o Sol” no Teatro

Ricardo Neves-Neves faz jus ao seu estilo caricato e castiço na arte da encenação com este texto magnífico de Edward Albee. Escrito (e registado) em 1983, pugna pela actualidade, dando liberdade a temas como o amor (no geral) e o desamor, a perda, a velhice, a inocência da juventude, a morte. No fundo, fala-nos da vida e da sua efemeridade que pode passar despercebida.

É isso que Neves-Neves conseguiu captar (e muito bem), num espaço onde aparenta predominar a diversão, alegria e tranquilidade, mas onde existe também muita dor, insatisfação, abnegação social, conjugadas a partir de ironias e humor.

Podemos de facto “Encontrar o Sol”, mas por vezes também temos que andar à sua procura, quando muda de sentido ou mesmo quando se sobrepõem nuvens que o fazem desaparecer por instantes. Isto tudo podia ser uma metáfora para aquilo que é a vida, tendo em conta a percepção que cada pessoa adquire com as suas vivências. Na minha opinião, não é por mero acaso que o cenário é uma praia. Pois a praia, o sol e o exercício físico são incentivos que geram, por convenção, felicidade mesmo quando se sentem mais em baixo, assumindo um papel de “felicidade disfarçada”, ou talvez uma “felicidade instantânea”, mas comprovada psicologicamente. Tudo parece bem, mas ao longo da peça sentimos as tensões das personagens, pelo exercício de partilha, os seus medos, desconfianças e inseguranças.

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Algumas das cenas, momentos ou interpretações que retive, e que me fizeram pensar, dada a profundidade que cada personagem representa, psicologicamente falando, e também ao facto de serem tão contemporâneos foram por exemplo:

Em primeiro lugar, o Encontro entre ex-namorados, logo no início: a banalização da palavra “Amo-te”, que se enquadra perfeitamente nos dias de hoje, em que o amor entre duas pessoas é algo raro de se encontrar, mas onde talvez existisse no tempo de Albee, sendo que nem todos os tipos de amor eram aceites na época, muito menos com o seu estatuto social de alta burguesia.

Seguidamente, quando Cordelia, depois de interrogar Daniel sobre as suas “desconfianças”, diz ao marido que o ama e este retribui com: “Eu Amo-te também. Eu tenho um coração espaçoso”.

E por fim, os casamentos “fantoche” em que um dos casais parece ser feliz e o outro tão infeliz, parecendo a projecção do outro. Por um lado, Abigail que não se sente amada, mas que sabe muito bem onde se está a meter, e Cordelia que ama o marido e o aceita tal como é, porque “já tem muitos anos disto”, mas que no fundo também não quer ficar sozinha.

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Alguns aspectos que adorei foram, em termos cénicos, a coordenação dos movimentos dos ex-amantes (ou actuais), o surgimento da música ao vivo interpretada por Rita Cruz e outro tema por Romeu Costa, sempre acompanhados com um coro que emerge da plateia, sem ninguém estar à espera. Também o monólogo protagonizado pelo mais jovem dos actores, Tadeu Faustino, merece atenção, sendo que ao mesmo tempo, desceu uma tela na qual foram projectados comentários dirigidos a nós, público, em relação ao jovem actor.

Algumas deixas que também me deliciaram foram:

“Mas há para aí uma teoria qualquer a dizer que nós, os jovens, e vocês, os velhos, temos coisas em comum que nos deviam unir quanto aos que ficam pelo meio.” (Diz Fergus para Henden)

Das minhas preferidas: “Podia mudar o mundo, mas não ia valer de nada, para pior já basta assim.” (diz Gertrude)

“ Abraças-me, mas eu mal sei que és tu e quem estás de facto a abraçar.” (diz Abigail para Benjamin)

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  • Infelizmente, a peça termina hoje no Teatro São Luiz, mas regressa em Março no THEATRO CIRCO DE BRAGA (3 de Março, 6ª às 21H), por isso não percam a oportunidade!

Agradecimentos:

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Ricardo Neves-Neves (Foto de Bruno Simão)

Em primeiro lugar ao encenador Ricardo Neves-Neves pela sua disponibilidade e simpatia. Espero que continue a surpreender sempre pela positiva, como tem feito, com a sua forma e maneira de ser diferente e original.

À equipa do Teatro do Eléctrico, em especial à Mafalda Simões pela simpatia e atenção com que sempre me respondeu.

À equipa do Teatro São Luiz, também pela disponibilidade de me deixarem fotografar e pela excelente recepção.

Relação entre Personagens:
Benjamin (Romeu Costa): Teve uma relação com Daniel, mas agora é casado com Abigail (Rita Cruz).
Daniel (Luís Gaspar): casado com Cordelia (Tânia Alves), mas já teve uma relação com Benjamin.
Henden (Marques d’ Arede): Homem de 70 anos, casado com Gertrude, é pai de Daniel.
Gertrude (Cucha Carvalheiro): Mulher de 60 anos, casada com Henden
Fergus (Tadeu Faustino): o mais jovem das personagens, com 16 anos, filho de Edmee.
Edmee (Custódia Gallego): Mulher nos 45 anos, com muito glamour, mãe de Fergus.

FICHA TÉCNICA:

Tradução | João Paulo Esteves da Silva
Encenação | Ricardo Neves-Neves
Assistência de encenação | Catarina Rôlo Salgueiro
Interpretação | Cucha Carvalheiro, Custódia Gallego, Luís Gaspar, Marques d’ Arede, Romeu Costa, Rita Cruz, Tadeu Faustino e Tânia Alves
Cenário | Tiago Pinhal Costa
Figurinos | José António Tenente
Luz | Luís Lopes
Música e Sonoplastia | Sérgio Delgado
Piano | João Paulo Esteves da Silva
Guitarra | Marco Carvalho
Saxofone | Rita Nunes
Trompete | Ivo Rodrigues
Violino | Raquel Cravino
Coros e Apoio vocal | João Henriques
Com a participação do Coro CoLeGaS – Coro Lésbico, Gay e simpatizante da ILGA Portugal
Fotografia | Alípio Padilha
Comunicação do Teatro do Eléctrico | Mafalda Simões
Estagiários ESAD | Diogo Guerra, Emanuel Santos, Raquel Mendes, Vânia Dinis

M/14
Duração aproximada | 1 hora e 15 minutos
Co-produção | São Luiz Teatro Municipal, Theatro Circo de Braga e Teatro Do Eléctrico

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Laura Ribeiro

Editado por: Isabel Vermelho

 

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