Dois Dedos de Música com KAP

original-34

O convidado de hoje da rubrica Dois Dedos de Música é José “KAP” Poças. Nascido a 6 de setembro de 1995, KAP,  procura conquistar um lugar no legado gaiense no Hip Hop Português.

Conhecer KAP:

KAP, nome artístico que diz ser um “mau nome”, resulta da evolução de “CAP”, que é também o nome de outro rapper português. Assim, surgiu a necessidade de alterar.

Com um álbum de 18 músicas, lançado em Novembro de 2015, revela ao desacordo que o ponto mais alto da sua carreira foi ouvir-se numa rádio nacional às seis da tarde, acontecimento que “mexeu consigo” e que teve tanto de positivo como de inesperado, já que, diz “não fazer ideia que ia acontecer”.  “Do Nada Nasce Tudo” é o nome do álbum que lançou em 2015 e do qual surgiu  “-1a+” (menos um a mais) que, pela música que produz, afirma ser uma boa alternativa ao seu nome.

Vida Musical:

Entrou no mundo da música aos seis anos, altura em que ingressou na Academia de Música de Vilar do Paraíso. Foi aos sete anos que começou a estudar Guitarra Clássica, estudos que se prolongaram até aos 14. “Foi também nessa altura que comecei a perceber o gosto que tenho em criar”, revela KAP em entrevista ao desacordo. Dois anos mais tarde, aos 16, surgiu o rap na vida de KAP, que lhe permitiu fazer o seu primeiro concerto no Colégio dos Carvalhos. “Muitos amigos nem sabiam que eu fazia rap”, confidencia ao desacordo, pois sempre passou despercebido com facilidade. Neste concerto cantou três músicas, com os amigos todos na linha da frente.

Processo Criativo:

Descreve o seu processo criativo como “a partida de uma ideia com função ” às vezes difícil de definir”. Refere que “a maior parte das vezes são para pequenas frases que podem ou não virar rimas, às vezes são só motes para reflexão que também podem virar ou ideias para músicas, rimas, conceitos ou simplesmente algo estético”.

Em relação à componente musical: “parte sempre de uma fase em que me foco em produzir alguns beats que mais tarde quando me apetecer escrever ouço para perceber qual vou usar e o que vou fazer nele. Depois de escolhido faço um pequeno brainstorming para orientar as ideias, vou ao depósito de frases soltas [que anteriormente referiu] ver o que me pode lançar na escrita e tento organizar o tema em si de alguma forma, ver se há alguma estrutura que possa ser engraçada de concretizar. Depois demoro sempre algum tempo a escrever, normalmente uma semana pelo menos. Enquanto gravo dou-me espaço para vários takes, gravar coisas sem estarem muito planeadas para tentar ao máximo aproveitar ideias vocais. Hoje em dia tento não sistematizar demasiado o processo da gravação porque pode facilmente culminar em recorrer demasiado aos mesmos métodos e ideias o que depois transparece um bocado nos arranjos vocais ao longo de um projecto”, revela ao desacordo.

KAP refere que a sua inspiração parte de temas que lhe inundam o pensamento, revelando que as suas músicas são sempre algo que deseja e que começa, “por querer” e por sentir necessidade de explicar algo que o inquieta, pensamentos que reflecte na sua música.

original-22

O artista revela ainda que “já aconteceu pontualmente falar de coisas” que não lhe aconteceram, no entanto, “não é muito comum”. Para concluir a abordagem ao seu modus operandi na composição da música afirma que a sua música é fruto do que “lhe vai na cabeça” isto é, “o que quer dizer e muito pouco o que acho que os outros querem ouvir”.

Kap apresenta nomes como Virtus, Minus ou Keso, como alguns dos exemplos portugueses com quem gostava de partilhar uma música e Elza Soares a as Ibeyi como nomes internacionais com os quais gostava de compor. No entanto, afirma “não sentir muito necessidade de criar em conjunto” já que, considera “que as participações musicais são muito sobrevalorizadas”.

Descreve a sua música como “menos um a mais”, expressão que considera cada vez mais real quando inserida no panorama musical português.

No caminho da música não abdica dos seus companheiros Realista, Bomer e Rui Correia, não esquecendo, no entanto, outros “não-músicos” que também estiveram sempre do seu lado ao longo da carreira musical.

Sobre o seu álbum, e quando questionado sobre a música mais especial do seu maior exemplo físico de talento, destaca a dificuldade em definir uma, “pela multiplicidade de dimensões pessoais que as suas diferentes músicas revelam”, mas que obrigado a escolher uma, escolhia o tema “Gravidade”, que não faz parte do álbum, mas foi lançada logo de seguida. “Representa muito bem a minha visão de mim mesmo enquanto artista na maior parte do tempo”, afirma.

Visão sobre o panorama do Hip-Hop nacional:

Quando pedida a sua opinião sobre o panorama do Hip-Hop português, este afirma “estar a ficar denso o suficiente para conseguirem existir vários públicos mais ou menos distintos do rap português”. Para explicar a sua perspectiva conta uma experiência pessoal: “tive no concerto de despedida do “Universos” do Virtus no Plano B, e a média de idades devia ser por volta dos 20/21. Ou na apresentação do “KSX 2016” do Keso no Maus Hábitos, a mesma coisa, talvez até um público mais velho. E não são as mesmas pessoas que vão aos concertos dos novos nomes grandes do rap nacional, na sua maioria” Panorama este que considera ser “bom sinal”.

No entanto, refere ainda haver “pouca identidade” porque considera que “é natural nem toda a gente inventar algo novo”. Para concluir a sua perspectiva sobre o Hip-Hop nacional, Kap refere que “ainda se sente que grande parte do público e de muitos dos artistas precisam de educação e de entender que um género que sempre se abriu tanto à diversidade e viu nela o seu ponto forte, não se deve começar a limitar. Não é necessário andar aí malta a policiar e tentar ditar o que é rap e o que não é. É música, o resto não interessa muito“.

O artista de 21 anos, que afirma ter alguma dificuldade em definir referências, apresenta alguns nomes como Virtus, Minus, Keso, Sam the Kid ou Zeca Afonso, no panorama musical nacional, e J Dilla, Madlib, Shlomo, Elza Soares, John Cage, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Kendrick Lamar, Archy Marshall, Jorge Bem ou James Blake, no panorama musical internacional, como influências/referências.

Em relação a 2017, o artista revela que seu projeto “não será nada de mais”, pois não espera tocar muito este ano e revela que não sairá muita coisa com o seu nome. No entanto, “espera fazer a música que tem planeada fazer”, dando continuidade ao projeto de maturação da sua música e de crescimento sustentado do seu projeto.

Opinião do redator:

Conheci este artista numa actividade de escuteiros e desde então tem-me acompanhado em alguns momentos da minha vida quotidiana. Um Hip-Hop diferente do que estamos habituados no sul, com muita letra e muita maturidade. Pelo conhecimento que tenho deste projecto e de outros semelhantes, é algo mais habitual no Norte. Para mim, um exemplo no “mundo do Hip-Hop português”, pela sua capacidade enquanto rapper, mas também pela sua complexidade e  pelo seu conhecimento musical que transparece para a sua produção.

O melhor de Kap, para mim, pessoalmente são dois temas:

“Para Sempre” – Pela simplicidade e pela mensagem que transmite. Pelo desafio que apresenta e pela energia que a musica transmite apelando à escolha e a definição de objetivos.

Íman – Pela história que conta e pelo reflexo que apresenta alguns dos problemas do jovens de hoje.

É um orgulho, pessoalmente, ver um irmão escuteiro a crescer no mundo do hip-hop português e a transmitir para as suas músicas alguns dos valores que este movimento nos transmite desde novos.

original-18

O presente artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados

Escrito por: Filipe Lima

Editado por: Rita Rogado

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s