Os números não enganam. As pessoas sim

pabortoNo passado dia 19 de fevereiro, o Observador publicou o artigo “O pior aniversário de sempre”, de António Pedro Barreiro, estudante de Ciência Política e Relações Internacionais. Na sua crónica, António disserta sobre a legalização do aborto em Portugal e deixa clara a sua posição através de frases como “(…) o aborto é uma má resposta, intrinsecamente violenta e destrutiva e incapaz de salvaguardar a saúde materna”, “conheço quem prefira tapar a morte com a peneira e lhe chame interrupção voluntária da gravidez (IVG)” e “(…) o ideal era que não existisse de todo”.

Não entrando em discussão quanto ao tema da despenalização do aborto, cinjamo-nos aos números que António nos apresenta. Para corroborar a sua posição anti-aborto, o estudante expõe dados como: “entre 2008 e 2015, a Direcção-Geral de Saúde estima que se tenham feito 145 706 abortos por opção da mulher. O que significa que, por cada cem crianças que nasceram no nosso país, quase vinte foram abortadas por opção da mulher.”

Ora, esta análise matemática e estatística de António Barreiro assenta em dois grandes erros básicos: o primeiro engano passa por afirmar terem havido 593 abortos a mais do que aqueles que foram realmente efetuados. No período de 2008 a 2015, foram realizados 145 113 abortos voluntários e não 145 706, como nos mostra o relatório da Direcção-Geral de Saúde, relatório esse que o estudante afirma ter consultado.

A segunda falácia da sua análise, embora não tão básica como a primeira, não deixa de ser menos grave, principalmente pelas conclusões fraudulentas que dela retira. Quando afirma que por cada cem crianças que nasceram no nosso país, vinte foram abortadas por opção, o cronista do Observador devia ter tido em conta que quando se utiliza um indicador cujo denominador é “nados vivos”, este é influenciado pelo número de nascimentos na população. Em sociedades em que o número de nascimentos diminui (como é o caso de Portugal), o quociente “abortos por nados vivos” aumenta mesmo quando o número de abortos se mantem constante. É uma regra básica da matemática: se o dividendo diminui a uma percentagem inferior à que diminui o divisor, o resultado aparecerá sempre maior. Neste caso concreto, se o número de abortos efetuados diminuiu, mas a uma escala inferior ao número de nascimentos, certamente o resultado aparecerá sempre como superior. Esta explicação é também referida no relatório dos registos das interrupções da gravidez referente aos dados de 2015 da DGS, mas, mais uma vez, António Barreiro preferiu não a ter em conta quando fez os seus cálculos.

Mas não se fica por aqui: o estudante da Nova chama a atenção para o “erro” que o jornal Expresso havia cometido na semana anterior, ao noticiar que a quantidade absoluta de abortos estaria a diminuir: “O que o Expresso não conta é que o número de abortos por cada mil nascimentos tem crescido de forma consistente”. Ignorando o facto de que o Observador, jornal para o qual escreve, havia lançado uma notícia com a mesma informação no dia nove “Interrupções de gravidez por opção da mulher em queda desde 2012”, assim como nos habituou na sua crónica, António Barreiro também se “esqueceu” de ler no relatório que entre 2008 e 2014 se registou, de facto, uma diminuição das interrupções voluntárias em cerca de 10,2%.

E mais, para além do relatório também explicitar que se mantém a tendência decrescente do número de interrupções voluntárias realizadas por opção da mulher nas primeiras 10 semanas de gravidez, também esclarece que o número de interrupções realizadas a nível nacional, quando analisado comparativamente a outros países europeus, se tem situado sempre abaixo da média europeia; que em 2015, 71% dos abortos por opção da mulher foram realizados em unidades oficiais do Serviço Nacional de Saúde; que em 2015, cerca de 95,7% das mulheres que realizaram IG por opção escolheram posteriormente um método de contraceção e que as complicações pelo aborto ilegal foram reduzindo a partir de 2007/2008. Mas estes dados, António Barreiro esqueceu-se de referir.

No fim, o cronista afirma que “os números ajudam-nos a traçar o retrato de uma sociedade onde o aborto não é um fenómeno raro, não deixa as mulheres mais seguras e nem sempre configura um exercício de liberdade”. Se “o aborto não cumpriu as suas promessas e falhou gravemente às mulheres portuguesas”, adulterar dados para corroborar uma crença pessoal não é, também, falhar gravemente aos leitores? Estimado António, os verdadeiros números estão à vista. Só não os vê quem não quer.

Para consultar os dados, aceder a RELATÓRIO DOS REGISTOS DAS INTERRUPÇÕES DA GRAVIDEZ DADOS DE 2015 Direção de Serviços de Prevenção da Doença e Promoção da Saúde

Consultar crónica em: http://observador.pt/opiniao/o-pior-aniversario-de-sempre/

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Patrícia Mota Viana

Editado por: Rita Rogado

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