O Duelo

No passado dia 12 de Fevereiro fui assistir a uma peça no TNDM II, que me abalou profundamente, mas não no mau sentido. Nunca tinha assistido a nenhuma peça produzida por esta equipa, que é o Útero (erro meu) e que celebra agora 20 anos.

“O Duelo”, encenado por Miguel Moreira, uma adaptação do texto de Bernardo Santareno de 1961, foi das coisas mais incríveis que já vi no teatro. Este desassossego que me foi provocado pelos actores, estas tensões, e acredito profundamente que não tenha sido a única a senti-las, foi algo que me maravilhou e inspirou a escrever esta pequena opinião de mera espectadora.

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Fotografias da peça por: Helena Gonçalves

Como já referi, esta obra foi inspirada num livro de Santareno de 1961, mas é incrível como o texto podia muito bem ser sobre os tempos de hoje. O ambiente familiar, as tensões entre os actores, que a meu ver entraram em palco como pessoas e não como actores, talvez tenha feito a diferença e tenha tido mais impacto nos espectadores. Pelo menos em mim teve bastante.

Confesso que conhecia pouco de Santareno e aconselho a quem não esteja familiarizado com as suas obras a lê-las. Fui pesquisar e percebi perfeitamente o porquê da escolha deste texto e das palavras. As expressões de Santareno dão-nos [aos leitores] uma sensação muito física, que pelos vistos coincidem com temas que Miguel Moreira tem repetindo ao longo dos seus espectáculos. E nada melhor para celebrar os 20 anos do Útero com um texto destes, que nos consegue abalar por fora e por dentro.

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Depois da peça tivemos oportunidade de ter uma conversa com os actores, quase como que um tête-à-tête, com perguntas específicas, dirigida pela Maria João Guardão, de onde retive alguns aspectos interessantes, pois identifiquei-me imenso com as suas respostas.

Uma das coisas que Miguel Moreira mencionou em relação a nós [aos espectadores], é que também ele já o foi (e ainda o é), mas sempre foi um “espectador da incompreensão”, um “apaixonado” desde jovem, por ver coisas que não compreende. Com isto, entendi que Miguel deixa nas suas criações artísticas uma submersão de zonas incompreendidas, propositadamente, o que para nós, público, é óptimo. A percepção de cada um neste tipo de espectáculos é que conta. Um exemplo engraçado, referido pelo próprio encenador, foi sobre uma árvore (ainda grandinha) que surge na peça, muitas vezes carregada por uma personagem, que neste caso foi pelo próprio Miguel, que disse desconhecer o seu significado, mas que a considerava importante o seu aparecimento. Tal como referiu, quando encontrou esta árvore na rua encontrou-se também a si próprio e propôs ao grupo entrar em palco, não como um actor, mas como uma pessoa. E foi isso que fez.

Nesta conversa sobre as diferenças entre actores e pessoas ou da sua complementaridade, prestei atenção a uma perspectiva de Miguel, que realmente faz pensar, mas é ainda muito criticada no mundo do espectáculo, que foi a resposta a uma pergunta colocada pela Maria Guardão:

É alguma vez possível a pessoa não entrar em palco?
Ao que Miguel respondeu que achava que isso das pessoas entrarem em palco raramente acontecia, pois estão afectadas com uma duplicidade e com uma preocupação. Como são formadas (bailarinos, actores) têm sempre uma preocupação de projectar aquilo que eles no fundo pensam que irão ser. Respondeu também que raramente se cruzou com artistas que revelam essa consciência máxima da pessoa que são. Parafraseando, Miguel referiu que isto acontece pois o que normalmente se pede em palco é a projecção da pessoa e que ainda há uma cultura que defende: “nós não somos aquilo, não somos a personagem, tem que haver uma distância”.

Outro aspecto interessante, com que também me identifiquei bastante foi a maneira como Miguel vê a Arte. Durante a conversa retive também uma das suas respostas em que apelou que a Arte é o público que a faz, que não tem de ser ele próprio a moralizar o nosso pensamento, temos que ser nós, o Público em tensão com o encenador, que muitas vezes pode ser positiva ou até mesmo negativa, mas que é assim que se constroem pensamentos. Assim, podemos também contribuir para um desenvolvimento do que nós, público, julgamos que o teatro tem da sociedade, deixando sempre estas “zonas imperfeitas”, como lhe chamou nas suas peças.

Por fim, como amante de Teatro, aconselho-vos vivamente a assistirem a este espectáculo. Tem nudez, sim, mas na minha perspectiva a nudez nesta peça nem é o que mais sobressai. É necessária, sim. Mas este Duelo é sobretudo uma bela dança, uma dança, literalmente, porque tem excelentes bailarinos, mas também uma dança em termos de intensidade de emoções e tensões entre o público e os intérpretes. As imagens, os movimentos que abalam o corpo, o nosso e o deles, a que assisti foram de uma obra de arte suprema, sem exageros. Só mesmo ver para crer.

Agora, para terminar, vou partilhar outra frase que retive de um dos actores, Romeu Runa, que referiu, e estou a parafrasear, que há muito tempo não ouvia numa peça de teatro, a palavra: “Amo-te”. Eu já tinha ouvido, mas não com aquela intensidade ou veracidade.

Por isso, vão até ao Teatro! A nossa geração, mais do que nunca precisa de ir ao Teatro, Temos muito boas obras em Portugal e esta é sem dúvida uma delas. Acreditem que não se vão arrepender de partilhar esta viagem, este Duelo. Até se calhar, vão sair de lá a pensar neste texto (espero eu), e vão reconhecer e/ou identificar diferentes vivências, tal como eu.

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Estará até dia 19 de Fevereiro no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Não percam tempo e vão já reservar o vosso lugar!

Página Oficial do Útero (Facebook)

Ficha Técnica Principal:
Produção: Útero
Personagens:
Ana Ribeiro (Manuela);
Romeu Runa (Ângelo);
Sandra Rosado (Rosária);
Sofia Skavotski (Mariana);
Camilla Morello (Maria Clara e José);
Francisco Camacho (Chico);
Beatrice Cordier (Salomé).

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Encenador: Miguel Jorge Rosado Moreira

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Laura Ribeiro

Editado por: Rita Rogado

 

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