A opinião de um caloiro ISCSPiano sobre a praxe

Entrei este ano no ISCSP, em Ciências da Comunicação. Estava assustado, ainda para mais, por vir de longe, de muito longe (dos Açores, imaginem lá). Não conhecia ninguém e, a primeira vez que lá apareci, com a camisola de caloiro vestida, senti-me genuinamente assustado. Não sabia o que me esperava. E, como se não bastasse, fui para lá com a ideia errada daquilo que a praxe ia ser.

Habituado a ver todas aquelas notícias e todos aqueles artigos a deitar a praxe abaixo, fiquei receoso, naturalmente. Mas fui. E não me arrependo. Não vos vou iludir sobre aquilo que achei, dizendo apenas coisas boas relativamente à praxe. Apesar de ouvir os doutores, mestres e veteranos do meu curso a dizer que há alguns anos era bem pior, o primeiro dia foi horrível. Enchemos, enchemos e enchemos. Pintaram-nos a cara, deram-nos nomes de praxe, faziam-nos gritar algumas coisas, mas nunca abusaram… Tanto que acabei mesmo por voltar.

Logo no primeiro dia, um dos mestres disse-nos algo do género: “Vocês hoje vão para casa, todos rebentados, a pensar que a praxe foi uma porcaria, mas, no dia a seguir, vão dar por vocês aqui outra vez, sem saber porquê.” E não é que ele tinha razão? Lá estava eu, outra vez. Porquê? Perguntei-me isso vezes e vezes sem conta ao longo do dia.

Para mim, foi precisamente no segundo dia que a praxe começou. Porque foi aí, aí sim, que eu comecei a sentir os efeitos daquela “porcaria”. Tenho a certeza absoluta de que se não tivesse passado pelo que passei até agora (e sei que mais ainda me espera), não teria feito metade das amizades que fiz até hoje. Tenho a certeza de que se não tivesse passado por aquilo que passei, que não estaria aqui já a olhar nostalgicamente para aquilo que já aconteceu! Sim, a praxe tocou-me assim tanto.

A melhor parte? Ao princípio não percebi isso, mas agora consigo vê-lo bem: o orgulho com que os doutores, mestres, veteranos cantam o hino e todos os cânticos associados ao curso. Vê-los berrar, ficar sem voz, sem ar para honrar um curso? O quê? Pareceu-me fútil. Mas agora, de certa forma, olho para os cânticos como um marco. Marcam aquilo pelo que os caloiros e, no seu primeiro ano, os agora doutores, mestres e veteranos, passaram. E sim, percebo porque é que eles cantam aquilo com tanta garra, com tanta dedicação. E só espero conseguir fazer o mesmo.

Mas não fica por aí! Depois, há o apadrinhamento. É o apadrinhamento que quebra aquela barreira que há entre Entidades Praxantes e caloiros. E digo-vos, que diferença que se sente. Aquela barreira, aquelas formalidades todas, típicas de praxe, como por exemplo “Olhos no chão caloiro!” ou “Caloiro, não ria!” pararam. Falámos com as pessoas que escolhemos para nossos padrinhos, como se eles fossem isso mesmo: pessoas. Jantámos todos juntos e, pela primeira vez, senti aquele “calor” de uma família. Uma família gigante.

A praxe é, para mim, tudo isto e ainda mais. Ainda mais, porque há coisas que pura e simplesmente, não conseguem ser explicadas por palavras. Só passando pelos desafios, pelas adversidades, pela estupidez típica (e agradavelmente saudável) da praxe, é que se consegue sentir na pele, que se consegue perceber tudo o que acabei de escrever. E, acima de tudo, a praxe não foi em vão. Pelo menos, já não consigo compreender a parte de mim que tinha receio que assim o fosse ser.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

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